quarta-feira, 15 de julho de 2020

SEVERINO CONTINUA MAIS VIVO DO QUE PODEMOS IMAGINAR

Quando eu chegava a este mundo em 1956, João Cabral de Melo Neto acabara de lançar sua famosa obra “Morte e Vida Severina” que conta a trajetória e o sofrimento do itinerante Severino em busca de uma vida melhor na capital pernambucana. De sua jornada, muitas mortes e muita miséria enquanto a busca do seu grande sonho seguia sendo um eterno pesadelo.

Considerando que já lá se vão 64 anos desde que a obra foi publicada e que a busca dos “Severinos” por vida melhor nunca acaba, me pego aqui a pensar neste Brasil imenso, habitado por milhares de “quebra-galhos”, alusão feita àquele Severino interpretado pelo saudoso Paulo Silvino num famoso quadro de humor. O Severino de todas as partes continua sendo aquele sofredor aguerrido, capaz de trabalhar com qualquer coisa para dali tirar seu parco sustento. Mas o Severino de todas as partes, a maioria que só sabe assinar o nome e escrever algumas palavras, carrega consigo hoje um CPF e um RG que podem lhe garantir um desses benefícios governamentais que neste atual governo não passam de uma esmola para se criar vadios. Ora; o Severino desse tempo pandêmico carrega, além da eterna esperança de ser digno à existência o seu título de eleitor, passaporte para a tão esperada vida melhor, numa casinha com certo conforto, com energia elétrica e água encanada, um televisor para o entretenimento e é claro; comida no armário.

Severinos e Severinas atravessaram distâncias por eles inimagináveis ao longo dessas décadas enquanto eu por aqui crescia tendo uma infância feliz, bem alimentado, com direito à instrução e total acesso ao conhecimento em todas as suas áreas. Cresci um tanto alheio à triste realidade de nossa gente “Severina” tão sofrida, tão explorada, tão pisoteada pelas classes abastadas de uma sociedade hipócrita onde o “outro” em seus andrajos deploráveis passa de mendigo a um perigo iminente que urra feito fera com ecos que retumbam do interior das favelas.


Quando atingi uma idade plausível para a compreensão da nossa realidade pífia levei um susto ao descobrir um país imenso, dotado de uma riqueza inesgotável e onde, a exemplo da visão do Manuel Bandeira, passava a observar “um homem na lata de lixo”, aquele “Bicho” esfomeado nos assombrando a alma como um fantasma vivo.

Então tivemos a fase do “É isso ai, Bicho!”, e nem lembrávamos daquele “Bicho humano” esmiuçando o lixo para comer, para ter a chance de rastejar um pouco mais. E aquilo, para aquele “Bicho” era tudo o que restava. Os restos de uma sociedade humana tão desumana.

A Jovem Guarda passou e deu lugar a nossa Velha Guarda repleta de memórias maravilhosas de um tempo em que se falava muito, mas frente a frente. De um tempo em que um abraço era fraternal e verdadeiro e onde o romantismo era uma eterna poesia. Mas o poetinha Vinicius havia dado o aviso: “Que seja eterno enquanto dure”. E não valia apenas para os relacionamentos amorosos homem-mulher. Valia para o amor sobre todos e sobre todas as coisas...

Então um belo dia, a exemplo do Big Bang, houve uma explosão e de repente esta terra começou a nos dar uma esperança verdadeira. A quase certeza de que os sofredores Severinos dessa terra imensa e desigual iriam entrar em extinção. Seria a primeira e única extinção de espécie que faria meu coração saltitar de alegria.

De repente saímos do mapa da fome, reduzimos a mortalidade infantil, melhoramos nossa posição em variados índices sociais e tudo dava a impressão que o respeito conquistado lá fora definitivamente nos impulsionaria de sexta economia para, quem sabe? – terceira ou segunda. Era uma realidade que finalmente pisoteava o que sempre fora, ao longo de cinco séculos, uma utopia e nada mais.

Mas outra explosão estava prestes a acontecer e de repente nossas esperanças sucumbiram vitimas da hipocrisia, do sarcasmo e da total falta de dignidade por parte de facções diretivas sem escrúpulos e capazes de tudo para amealhar o poder. E como cantava o Moraes Moreira: “Lá vai o Brasil descendo a ladeira”.

Só que enquanto descemos a ladeira quem passa por nós na tentativa de subir? – Os Severinos então esquecidos. Como uma legião de zumbis desses filmes de terror, eles saíram do chão aflitos, esfomeados outra vez, maltrapilhos, sem destino, sem esperança de sobreviver nesta terra rica que a eles oferece apenas e tão somente a dor, a fome, o lixo e a salinidade de suas lágrimas que escorrem pela face apenas como tentativa de uma nascente do rio da esperança que jamais atinge a grandeza do oceano.

Então me bate ao portão o homem esquálido, roupas esfarrapadas, um ameaço de chinelo no pé, barba comprida, olhos profundos, silhueta de um magro verdadeiro.

-Moço! Pode me arrumar um trocado? Estou sem comer a dois dias...

Prontamente lhe estendo uma cédula de 20 reais. Os olhos brilharam tal qual o de um mineiro que encontra o diamante mais valioso.

- Como é seu nome? Pergunto rapidinho.

- Severino!

E veio de onde Severino?

-Ah! Seu moço venho de tão longe que nem sei mais como voltar e se tivesse que voltar, não iria de jeito algum. Sabe? –prosseguiu ele – tenho muitas histórias e nenhum livro. Mas fome já é costume, cadeia já encarei por vadiagem, trabalho desde a roça até a construção de prédio. Mas sempre assim, pedindo aqui e ali e perambulando igual cachorro abandonado.

-Espere um pouco Severino.

Então voltei com uma calça, uma camiseta, um par de meias e um calçado, tudo meio calculado a olho. Felicidade foi ali. Felicidade de um sorriso franco como há tempos não via.

- Seu moço! O senhor é um anjo!

Que nada Severino, nem asas eu tenho.

-Mas o senhor tem a dádiva de me enxergar como gente. E isto já me basta.

E lá se foi pela rua aquele Severino surpreendente que de tão longe veio e que para tão longe irá, presumo eu.

Então uma voz lá na alma me indagou:

-Já pensou se fosse o próprio Cristo?

Pensei sim. E se era o próprio, creio que fiquei com suas bênçãos. De resto, que a esperança não nos abandone e que o tempo possa esculpir em nossa pura gente um coração ainda mais forte para que juntos, unidos por uma causa justa, possamos cantar: “Lá vai o Brasil subindo a ladeira.”


-Pedro Brasil Júnior - 14/07/2020 -


quarta-feira, 8 de julho de 2020

QUE ANO ?

Tenho visto muita gente clamar para que este 2020 termine logo. A maioria já não aguenta tanta desgraça e acredita que, de repente; basta jogar aquele calendário ali da parede no lixo e tudo se resolve. Isto me faz lembrar todas as viradas de ano quando, as pessoas desejam adentrar ao novo com aquele frenesi contagiante que as leva a sonhar com dias melhores, mais produtivos, mais saudáveis e mais ricos também. E o que seria mais um ano além daquela fenomenal volta do planeta em torno do sol? O Universo é mágico em seu sincronismo, mas nós, ínfimos grãos de areia por aqui dispersos, estamos alheios até mesmo aos valores da própria existência. Se bem lembro apenas um homem teve a capacidade de carregar sua própria cruz, nela ser pregado e, antes de um ultimo suspiro, teve a capacidade de pedir ao Pai o seu perdão aos que promoveram toda aquela maldade. E desde então a maldade nunca teve um freio, um fim. E chega-se agora não a um destino insólito, mas a um entroncamento que visa despertar nosso bom senso. 

As desgraças todas não surgiram aleatórias porque sempre tiveram e seguem tendo nossas próprias ações. Queremos um mundo melhor, mas seguimos destruindo a própria casa, como se de repente, por causa de um rato, a gente ateasse fogo na casa só para matá-lo. Sutil ignorância num mundo esfacelado pela desigualdade e pelo descaso. Já perdermos o rótulo de humanidade faz tempo. O trocamos por facções inúmeras, cada uma delas, em seu ponto de origem, envoltas em seus próprios e mesquinhos interesses. Então seria melhor levar este 2020 à guilhotina e pronto! – Cabeça de um lado e corpo do outro e tudo estaria resolvido. O admirável mundo novo teria início, mas infectado por todos os defeitos humanos que hoje se destacam em todos os pontos. E a visão é tão anacrônica que a maioria que almeja o final antecipado do ano nem se dá conta que todos os dias, milhares de pessoas encerram o ano com o final de suas vidas. É mesquinhez sobre a incapacidade de avançar, se proteger e ser protegido; de respeitar e ser respeitado; de se unir para a construção do melhor. Enquanto uma parte seguir puxando a brasa para a sua sardinha seguiremos na mesma condição de patéticos sobreviventes do caos ético e moral. Que o ano encerre quando a Terra perfizer seu trajeto, nesta elipse misteriosa de milhões de anos alheios aos relógios e aos nossos mais distintos costumes. Afora isto, o ano; cada ano – nada mais são do que os reflexos dos nossos passos sobre o gigantesco espelho da existência. 

 -Pedro Brasil Jr – 07/07/2020

quinta-feira, 18 de junho de 2020

PEGA NA MENTIRA E COLA UMA VERDADE CHINESA

Era para ter postado ontem, mas os palitos de fósforos não resistiram à pressão do sono. Então... é textão, mas se você tem um tempinho, fico grato!

 Pense numa quarta-feira repleta de afazeres como há meses não acontecia. Longe da outra casa há mais de dois meses, eis-me aqui neste cantinho diante do computador mandando ver nas tarefas à distância e vez ou outra dando uma deslizada por estas redes sociais que andam parecendo um daqueles vidros grandes de picles onde a gente encontra todos os sabores. Uns mais suaves e outros quase intragáveis como aquela pimenta dedo de moça que conseguiu se juntar à turma. Bem; fazia tempinho que seis e meia da manhã não me pegava pulando da cama e neste dia tive que ceder aos caprichos do relógio e iniciar o dia como manda o figurino antigo. Foi uma manhã agitada porque de repente, ainda que eu não necessite de tamanho sacrifício, tenho gente na família que num estalar de dedos precisaram se deslocar aos seus locais de trabalho. Então dei uma de Uber-Familia e fui de um lado para outro numa conexão entre São José dos Pinhais – Pinhais – Curitiba e de volta à São José devidamente mascarado no melhor estilo daquele zorro cavaleiro cortando distâncias em seu poderoso Silver. E as horas se esvaíram como as areias da ampulheta e eu, de volta ao aconchego só tive tempo de tomar um fôlego e partir para as atividades de praxe. Mesmo à distância, o prazer de se fazer o que se gosta é maravilhoso. Mas devo confessar que nestes deslizes pelo facebook ouvindo o saudoso Emílio Santiago dei uma pausa para divagar sobre as coisas que nos cercam, as pessoas que nos cercam, suas ideias, seus ideais e de outra facção, infelizmente, sua indomável ignorância. De repente me peguei olhando o vazio como se fosse um espelho animado me mostrando toda a trajetória que já fiz, a quantidade de livros que já li e sigo lendo, as canções e artistas tão bem selecionados, o convívio com gente bem à frente do meu conhecimento e com quem tive a honra de aprender. Foram muitos esses degraus para que eu pudesse ter a chance de olhar as nuvens por cima, com aqueles raios do sol infiltrando-se e promovendo um colorido fascinante e divino. Então voltei a escorregar as postagens do face e fui vendo de soslaio coisas como o “fim do mundo” anunciado pelo calendário Maia e já programado para a semana que vem. Acho que diante ao exposto vou ter que fazer o que nunca fiz: tomar um porre literalmente. Depois não me contive perante o “pesadelo do Covid” que segue aniquilando sonhos de norte a sul diante da indiferença de tanta gente. Já nem adentro aos alertas, porque quando faço isto já me sinto como placa de trânsito à beira de rodovia alertando para o limite de velocidade e, no entanto, a maioria aperta o pé para ver a roleta da sorte escolher uma nova vítima. E se o trânsito é uma guerra famigerada, imaginem a guerra biológica que muitos insistem em exaltar neste momento em ninguém mais sabe ao certo como conter o vírus e pior; como conter a volúpia de humanos dispostos a tudo para encarar um shopping ou uma festa de arromba. Mas em meio a isso tudo a gente descobre coisas deliciosas que os outros preparam em casa, como uma torta de matar a gente afogado ou aquelas rosquinhas da Jujú sapecadas em açúcar que bem convidam àquele café com leite. Ah! As rosquinhas da Jujú...


E as mentiras então? Tem tanta mentira por ali que se o Pinóquio tivesse a chance de acessar por certo que seu nariz iria daqui até os confins da Ásia. Eu nem vou relacionar as mentiras e nem tampouco os mentirosos que as espalham e que nelas acreditam com unhas e dentes. O que me surpreende é ver onde as pessoas conseguiram chegar a bordo desse gigantesco trem fantasma que lhes permite, me parece, fazer de tudo para destruir os sonhos daqueles que acreditam em um mundo melhor. Fico pasmo perante tanta gente odiosa, mal amada, recalcada, prepotente, racista, homofóbica e muitos destes, para deixar o quadro borrado de vez, com requintes de fascismo escancarado. Lembrei-me do Erasmo Carlos cantando lá no passado aquela canção “Pega Na Mentira” lançada em 1981 e que apesar da sátira era sim um esboço dessa coisa que vivemos hoje. Alguém inventa uma mentira e um batalhão de tapados acredita e passa adiante. Daí a calamidade cultural, social e política. E agora, chegando o cuco nas 23 horas eu continuo aqui com raros palitos de fósforos tentando segurar as pálpebras para enganar o sono e o cansaço. Mas querem mesmo saber? Hoje fiz apenas um turismo “the flash” pelas redes e concluo que realmente estamos, aqueles que tentam edificar uma vida concreta”, falando uns para os outros o que todos entre si bem sabem. Porque o resto não está nem ai para verdades que podem ajudar a melhorar o jeito de viver, de subir os degraus da existência, de requisitar através do conhecimento os direitos que todos temos e que hoje são pisoteados como baratas tontas. Daqui a pouco é quinta-feira outra vez e certamente que nos telejornais vão mostrar a China, de onde o vírus tomou o rumo mundial e muitos seguirão caindo de pau nos chineses porque comem morcego, escorpião, cobra, rato e os cambaus. Triste ignorância da nossa gente aqui que nunca se embrenhou pela real história do povo chinês num passado onde um cidadão considerado rico era o que tinha em casa uma simples garrafa térmica. Mas isto não importa porque a maioria dessa gente compra tudo que lá produzem por uma tal de Wish e se deliciam com as novidades tão práticas como uma banheira que você, depois do banho pode desmontar, comprimir e acredite, guardar numa gaveta. Fico aqui então com a “Verdade Chinesa” na voz do grande Emílio Santiago de onde trago pra você este pedacinho que é a mais pura verdade: “Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa Toma um copo, dá um tempo, que a tristeza vai passar Deixa, pra amanhã tem muito tempo O que vale é o sentimento E o amor que a gente tem no coração” – Se conhecer a canção já sabe a letra, se não conhece; por favor, vá ao youtube e curta o clipe. Além da música e do talento que Emílio Santiago tinha você vai comprovar o quanto detínhamos de majestoso em nossa arte e em nossa cultura. Porque o resto, é doce ilusão, é mentira escandalosa. 
( Pedro Brasil Jr – em 17/06/2020 )

terça-feira, 28 de abril de 2020

NASCE O 50º FILHOTE DE HARPIA NO REFÚGIO BIOLÓGICO DA USINA DE ITAIPU

Sucesso do Programa de Reprodução permite o envio de espécimes para outras instituições; um casal será levado para a França no próximo mês. 

 O Refúgio Biológico Bela Vista, da Itaipu Binacional, na fronteira do Brasil com o Paraguai, registrou no último domingo (26) a chegada do 50º filhote do Programa de Reprodução de Harpias (Harpia harpyja), mantido pela usina. O nascimento do bebê harpia consolida a iniciativa como o maior programa de reprodução em cativeiro da ave símbolo do Paraná no mundo. Para o diretor de Coordenação, Luiz Carbonell, essa é mais uma grande conquista da Itaipu, que é referência em vários projetos e ações sociambientais.
Foto : Alexandre Marchetti/ ItaipuBinacional

 “Logo essa ave estará ajudando em outros programas de reprodução no planeta, o que para nós é motivo de grande orgulho”, diz Carbonell. O filhote tem apenas 89 gramas. Por causa de seu pequeno porte, ainda não é possível determinar se é fêmea ou macho. “O recém-nascido foi tirado do ninho no dia 27 de abril, mas, devido ao seu tamanho e comportamento, acreditamos que o ovo tenha eclodido no domingo, dia 26”, explicou o biólogo da Divisão de Áreas Protegidas da Itaipu Marcos de Oliveira, especialista no manejo de aves de rapina. O pai do filhote é o primeiro macho nascido no RBV, em 2009. A mãe veio do Parque Zoobotânico Vale, no Pará, em 2014. Eles formam um dos seis casais reprodutores do plantel, que conta, atualmente, com 36 aves. “Nosso programa é o único no mundo que mantém uma reprodução continuada da espécie. Em outras instituições, há dois ou três nascimentos, mas não é mantida a reprodução de forma constante”, explica Marcos. 

Foto: Refúgio Bela Vista/ItaipuBinacional

 Exportação
 A taxa de sobrevivência de filhotes, que fica em torno de 80%, permite que o Programa de Reprodução de Harpias da Itaipu seja um fornecedor de espécimes para várias instituições ambientais. A próxima doação será de um casal que será enviado ao ZooParc Beauval, na cidade de Saint-Aignan, na França. A Itaipu aguarda os resultados de alguns testes sanitários para que as aves embarquem para a Europa, o que deve acontecer no próximo mês. As duas aves que serão enviadas para a França são consideradas “de segunda geração”: são filhotes de aves nascidas no Refúgio. “Para exportação de animais silvestres nativos, é permitido somente o envio de animais de segunda geração. É uma estratégia para manter conservado o material genético no seu país de origem, porém, permite a participação de outras instituições em programas integrados de conservação da espécie”, explica Marcos. 
 Natureza 
 O objetivo, num futuro próximo, é devolver as aves nascidas em cativeiro à natureza. “Já temos animais com idade compatível para entrar em um programa de soltura”, explica Oliveira. “É preciso finalizar o processo, criar um recinto no meio da floresta, longe do contato humano, colocar presas vivas para as aves caçarem.” Segundo ele, as aves precisam estar expostas a situações naturais, como procura de comida ou a falta de proteção contra a chuva e do sol. O Programa já está em contato com outras instituições para encontrar locais onde seriam feitas estas solturas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

SER HONESTO, DIRETO E VERDADEIRO TE ISOLA DO MUNDO

Passo a maior parte das horas de cada dia sozinho. Não por opção de escolha, mas porque tanto eu quanto os demais integrantes da casa tem lá seus compromissos. Ficar sozinho portanto, não é a mesma coisa que estar sozinho, muito embora isso tudo se pareça e tenha algo em comum. Também carrego no meu “chip” desde muito antigamente essa coisa de estar isolado, não porque não goste das pessoas, mas por uma seleção tipicamente natural que me faz, de bate pronto, enxergar a aura do outro e num relance tenho comigo uma espécie de ficha completa da pessoa. Verdade que as vezes me engano, mas isto é culpa dessa coisa chamada benevolência. Em suma; descobri que não se pode ser muito bom e nem bom o tempo todo. É preciso fazer escolhas para expor a atitude da bondade, do contrário, os outros vão achar que você é um bobo, um ingênuo. Voltando à aparente solidão de cada dia, passo minhas manhãs em pequenas atividades em casa e vez ou outra saio para resolver um problema ali no banco ou para comprar algo necessário. As vezes pego os cachorros e vamos dar uma passeada pelas ruas do bairro... Quando venho ao trabalho, me instalo numa sala de tamanho razoável. 
Ficamos ali eu e meu computador. Tem um aparelho de tevê, mas raramente eu ligo. Então tudo o que preciso desenvolver é feito numa ótima atmosfera de silêncio, o que permite maior atenção a todos os dados envolvidos. Vez ou outra aparece alguém para fazer uma pergunta ou pedir alguma coisa. Só isto! Quando me dirijo ao refeitório já é meio tarde, a maioria já devorou quase tudo e então eu me alojo numa mesinha, prato feito, copo de suco e ali mastigo sossegadamente tudo aquilo enquanto os pensamentos viajam na distância. As vezes coloco em dia parte da minha agenda e noutras fico imaginando possibilidades de dar uma melhorada em alguns setores da vida, mas por ora, nada a reclamar. As vezes esta aparente solidão na hora do rango é quebrada com a chegada de algum colega atrasado. Então temos um rápido diálogo e por fim, cada um para seu canto. Quando venho para o trabalho e quando volto para casa é sempre sozinho. Na verdade é eu e meu carro, meu abençoado carro que, dentro da sua simplicidade, tem a capacidade de me levar e me trazer com certo conforto. Ah! O rádio é ligado, mas trata-se de um pen drive com minhas música favoritas. Esses trajetos com trilha sonora são o bálsamo para a alma, para a inspiração que até a mim surpreende muitas vezes. Então deparo com um estudo que diz que, se você é capaz de ser 100% honesto, há uma alta possibilidade de você ser deixado sozinho e sem amigos. E isto porque existem pessoas, como é o meu caso, que sempre dizem o que pensam e sentem, que as tornam honestas e diretas, e tal atitude nem sempre é bem recebida por todos, mesmo a gente acreditando ser isto uma virtude. Não me surpreende nem um pouco afinal; vivemos tempos sombrios onde honestidade, transparência e confiabilidade são apenas palavras bonitas impressas no dicionário. O tal estudo diz ainda que as pessoas diretas, que preferem a verdade, acabam sempre isoladas e não seria diferente, até porque a maioria das pessoas querem que você lhes diga o que elas querem ouvir e dai; quando você as contraria dizendo a verdade, elas o eliminam da sua agenda. 
Em sendo assim, não é muito legal a gente ser sincero, porque a sinceridade( outra palavra bonita lá no dicionário) é uma faca de dois gumes e por causa dela, a gente fica sozinho. Uma ocasião estava eu na Rua das Flores em Curitiba no final do ano, época em que se realiza aquele magnífico coral com as crianças. Na época ainda era o Coral do Bamerindus (o original) e eu fiquei ali entre umas 5 mil pessoas, eu acho, assistindo o espetáculo e deixando rodar na cabeça um filme sobre a própria existência. Ao término do show, aquela gente toda começou a se movimentar entre lágrimas, sorrisos, abraços essas coisas todas que mais expressam entre as pessoas o desejo de encontrar a si mesmas. E eu ali, encostado num poste observando aquilo tudo e em total silêncio. Não havia um conhecido e nenhum estranho estaria disposto a falar com outro estranho encostado no poste para evitar que ele de repente viesse a cair. Eu lhes digo de coração aberto: naquele dia eu fiz a maior descoberta da minha vida. Eu descobri que eu precisava e portanto, preciso até hoje e para sempre, estar em companhia do sujeito mais legal que já nasceu: eu mesmo! E os outros? Quem são os outros? O que desejam os outros? Os outros vêm depois. Eles têm importância na nossa vida, principalmente os mais próximos. Mas, sem egoísmo, primeiro a gente, porque tanto eu quanto você, que somos únicos, lembrado somos pelos “outros” quando precisam de alguma coisa. E o mais triste é que quando a gente parte, e eu já vi de perto exemplos, as lembranças vão ficando escassas, as fotos vão saindo sutilmente da estante e muitas das coisas que se tinha vão partindo para outras mãos ou para o lixo mesmo. Então, estou me lixando para a solidão, para o isolamento, para o descontentamento por parte de pessoas que não aceitam a realidade. Veja bem; eu disse REALIDADE, porque da VERDADE nem eu sou sou dono. Cada dia que nasce eu vou à escola, eu aprendo lições novas, eu analiso, eu esmiúço e então eu faço conclusões acertadas. As vezes algumas pessoas me perguntam como é que eu consigo levar a vida numa boa, não engordar, dar boas gargalhadas, manter as finanças em dia, essas coisas. 
Não tem como ofertar uma resposta direta, porque absolutamente ninguém me pergunta sobre os desertos que atravessei sem camelo, das tempestades que encarei, das dores físicas e emocionais que tive que contornar e de uma força esplêndida que consegui extrair do âmago para sobreviver. Então; em sendo assim, me glorifico pela luta, pelas leituras de bons livros, pelos estudos em diferentes áreas, pela análise do comportamento humano nas ruas, nas lojas, no trabalho, por ai afora. Eu não vou dizer aqui SOU MAIS EU porque seria muita arrogância. Eu vou dizer simplesmente SOU EU porque EU e apenas EU é que sabemos o quanto a solidão incomoda ou não. O quanto o afastamento de pessoas incomoda, ou não. O quanto ser colocado de lado incomoda, ou não. De tudo, de todos e desses estudos e pesquisas por ai a conclusão definitiva é única e exclusiva: Cada um deve seguir a sua verdade, a sua vontade, os ensinamentos que adquiriu ou teve acesso. Mas as vezes, debater questões numa boa pode ser mais produtivo do que simplesmente achar que a sua verdade é a única que vale. E viva a solidão, o silêncio e a profundidade da inspiração!! 
(P.B.J. 13/02/2020)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

TRAVESSAS & TRAVESSIAS & LEMBRANÇAS & CANÇÕES

Todo ano, desde 2016, participo do Concurso de Linguagens Culturais promovido pela Secretaria de Cultura de São José dos Pinhais-PR. Uma vez adotada a cidade para moradia, me tornei tão sãojoseense quando aos que aqui nasceram, exemplo de minha filha Paula. Como fiel morador, a paixão pela cidade é bem antiga, muito antes de sonhar com a possibilidade de um dia por aqui se estabelecer, logo eu que na maior parte do tempo fui um desses mascates a mudar de casa e de bairro por incontáveis vezes. Verdade que de Curitiba ainda perdura minha paixão e saudade pelo Prado Velho onde, confesso do fundo coração, vivi a melhor infância que alguém poderia ter vivido. Bem; voltando ao concurso, em três ocasiões conquistei colocações expressivas sendo; um primeiro lugar em conto, um primeiro lugar em crônica e um segundo lugar em outro conto que nem te conto. Premiações na forma de troféu, todos dispostos na minha estante e em vários exemplares de livros conferidos pela Biblioteca Scharffenberg de Quadros. 
Para quem não sabe, Reinaldino Antônio Scharffenberg de Quadros era poeta e nasceu em 21 de janeiro de 1878, nesta querida São José dos Pinhais que na época ainda tinha apenas 25 anos de existência. O poeta deixou esta vida em 18 de maio de 1919 lá na cidade do Rio de Janeiro. Neste aparato de livros recebidos como premiação(e como é bom a gente ganhar livros) veio uma obra maravilhosa intitulada “ Travessas & Travessias”, com textos do saudoso jornalista Carlos Alberto Pessoa, fotografias de Charly Techio e Tânia Buchmann e Design Gráfico de Luiz Postal com prefácio do ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, até porque o Nego Pessoa escrevera sobre as mais famosas, conhecidas e desconhecidas travessas da cidade. Eu tinha ouvido falar sobre a obra editada e lançada em 2013, e fiquei feliz quando ela me chegou às mãos na forma de um duplo prêmio, porque se algumas travessas de Curitiba eu passei, outras nem sabia da existência. Leitura para uns 20 minutos, por ai, com belas fotos em preto e branco que bem demonstram a fidelidade de cada local ali descrito. O Carlos Alberto Pessôa (com chapeuzinho, como ele costumava falar) nos deixou em 2017 e também deixou muitas obras de seus escritos maravilhosos com suas tiradas ao melhor estilo dos atacantes no futebol e com sua língua tão afiada que era capaz de dar cabo do mais pirotécnico dos dragões. 
Conheci o CAP quando ainda começava a gatinhar neste mundão do rádio, tevê e jornais e sinto apenas não ter podido ter tido mais contato com ele e com tudo o que sabia fazer de melhor que era escrever. Nesta obra “Travessas & Travessias” que evidentemente existe à disposição dos interessados na Biblioteca Scharffenberg de Quadros aqui em São José dos Pinhais e também na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba você terá encontro com a imagens que, a exemplo de cartões-postais eternizam as paisagens descritas e, ao mesmo tempo, vai aprender com o poeta, com o jornalista e com o observador tão comum que, ao nosso redor existe sempre o palpitar do passado tentando captar as notas do presente. Mas ao final; uma música nova desencanta e o mundo todo canta! (P.B.J. 05/02/2020)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O MALDITO CALENDÁRIO

Chegou sorrateiro em frente ao portão e sem fazer cerimônias foi entrando com passos devidamente calculados. Porta entreaberta, empurrou cuidadosamente para não quebrar o silêncio, mas as dobradiças cansadas deram aquela famosa chiada e o sujeito que dormia acordou de sobressalto. -Quem está ai? -Sou eu! -Eu quem? -Fevereiro meu camarada! -Fevereiro? Mas já é a tua vez de comandar a orquestra dos dias? - Claro meu brother; então achava você que ia se eternizar neste cargo? - Bem; até que eu ansiava por merecidas férias, mas passou tão depressa... - Você é que pensa! Seus dias se arrastaram feito correntes em castelo mal assombrado. Aliás; teus dias foram uma assombração completa. -Não exagera! Tive dias ensolarados, gente curtindo a praia, pessoas comemorando o início do novo ano regados a champanhe e espumantes e... -Chega! Chega! Chega! - Você não está batendo bem da cachola meu nobre Janeiro. Veja lá; teus dias foram repletos de tragédias. Aguaceiro sem fim carregando tudo. E gente que já não tinha nada acabou perdendo tudo o que achava que tinha. Sem contar com esse vírus ai, o tal de Corona que pegou carona no lombo dos burros que conduziram esses teus dias insólitos. - Ah! Mas essas coisas são tão comuns ao longo de cada mês... - Pode até ser, mas todo ano quando você assume a orquestra é um desastre só.
Aliás; desastre sempre anunciado. Eu não vou te culpar ferrenhamente, porque nós sabemos que as pessoas é que criam esses problemas, em sua maioria, é bem verdade. -Tá vendo? Você tem que considerar que não foi tão ruim assim. - Pois é meu caro; mas a orquestra sob meu comando é sempre mais agradável a este povo sofrido. Aliás, esse povo sofre por 13 meses a cada ano. - Que é isso? Inventou um mês a mais? -Lógico meu caro. Os bancos, as escolas particulares, os serviços em geral já inventaram o décimo terceiro mês faz muito tempo. É a maneira sutil de enganar uns aos outros. Em sendo assim, o povo sofre treze meses e se diverte em apenas um, que evidentemente é o que eu comando no melhor estilo desses Djs mundão afora. -Ah! Tá bom então. Mas cuidado com essa referência ao treze. Não é um número bem visto, tanto no folclore popular quando nas lides políticas. Qualquer coisa ligada ao treze pode te deixar em maus lençóis... -Que se dane! Quem acredita em número do azar, gato preto e milagre de igreja precisa de tratamento psiquiátrico. A realidade é outra! -E qual é a tua realidade? - Oras! Eu sou fevereiro, o mês do elixir da vida. -Tá de brincadeira? Como assim? - Veja lá; quem nasceu no dia 29 sob meu comando, só faz aniversário a cada quatro anos. Quer mais vantagem do que esta? Se todos os demais aniversariam todos os anos, o sortudo do dia 29 do meu mês sempre vai estar mais novo, mais robusto, cheio de energia para curtir a minha festa maior, o carnaval, com o Rei Momo, a Rainha, o Trio Elétrico, os Blocos, as Escolas de Samba e muito love, só love, só love. E além disso, quando novembro fizer gargarejo para seu discurso de posse, terá de minha parte a entrega de todos aqueles rebentos originários das loucuras mais tesudas de norte a sul. - Ôpa! Menos ai. Tem camisinha, pílula, pílula do dia seguinte, Diu... - Quá, quá, quá... Tá por fora mermão. Na hora da forrupa, com uns tragos nas ideias ou coisas mais fortes o povo tá nem ai pra essas coisas e menos ainda para aquelas doenças venéreas. O povo quer é ir ao exagero afinal de contas, é carnaval, a festa da carne onde até vegano cai na folia. -Mas você é bem filho da puta, né? - Ops! Pega leve primo de calendário. Eu não promovo nada disso. Eu sou o mês e os homens é que fazem o festerê. Tô isento de toda e qualquer culpa. E também não tenho aquela aguaceira toda que tudo e a todos carrega como cabeça de água em rio. Ah! E todo mundo tem ainda um motivo para celebrar comigo. Sendo eu mais curtinho, o pessoal recebe o salário mais cedo, gasta mais cedo também, mas é ai que entra aquilo que te disse; que sou o mês da celebração e da alegria. Os outros doze meses é de luta, sofrimento, impostos, empréstimos, filas na lotérica, no banco, no posto de saúde, na vaga de emprego e por ai vai. O resto do ano é tempo de fila, inclusive de fila-boia, porque a coisa tá de um jeito... - Tá bom meu primo fevereiro! Assuma o cargo, coloque sua merecida faixa e tenha dias de um governo sereno, embora agitado pelas festas. Eu me recolho entristecido pelas causas das intempéries, mas a Natureza é justa e quando se revolta... sai de baixo! - Valeu primão Janeiro! Bom descanso e regresse enérgico naquele dia primeiro quando deixam a noite feito um dia e a cabeça feito um pião pelos efeitos etílicos. E tudo isto meu caro, porque querendo ou não, a vida é, foi e sempre será ditada por este maldito calendário. 
(PBJ- Curitiba - 03/02/2020)