
Ele tinha nove anos e já cantava... Eu tinha onze e achava que ele era só mais um desses meninos que cantam. O meu negócio era correr atrás da bola pelos campinhos, soltar pipa, trocar figurinhas e brincar o máximo que fosse possível. Ele tinha nove anos e sua infância durou muito pouco...Eu tinha onze e fiz com que minha infância durasse pelo tempo que eu desejasse.
Talvez ainda hoje, nos momentos em que me é possível, eu libere minha criança interior para que se exponha em brincadeiras sadias e assim, possa dizer, a seu modo, que a vida é simples, se a gente fizer tudo para que ela assim o seja. Daqueles onze anos para cá muitas coisas aconteceram no mundo e até certo ponto, fomos escrevendo nossas histórias em pontos tão distantes e de maneiras tão diferentes, cada um, acredito eu, sem dar-se conta do que seria a trajetória rumo ao futuro.

Ele marcou nas páginas do seu livro, passagens memoráveis e que a todos parece, aconteceram ainda ontem. Marcou corações apaixonados e embalados por suas canções e tratou de distribuir costumes e paixões fervorosas no coração de seus fãs. Vendeu milhões de discos, superou todas as paradas com seus hits e mergulhou no fantástico mundo da fama como ninguém jamais poderia imaginar.
Enquanto subiu seus degraus em direção à fama, eu segui o meu rumo como todo mortal dito normal, até porque a vida parece que dá mais vida àqueles que por alguma razão se destacam ao longo de suas jornadas. Mas isto acontece porque temos em nossa alma e sutileza das ilusões e elas nos empurram para frente como se fossem poderosas turbinas.
Não foram apenas as canções, nem a dança, nem os vídeos, nem os escândalos que o fizeram ser uma personalidade especial em todas as partes. O que mais marcou a todos foi o seu carisma humano, um menino eterno em seus folguedos milionários, atraindo milhares de fãs fervorosos aos shows e transmitindo a todos, pelos gestos, pela voz e pela dança uma mensagem qualquer para qualquer um em qualquer parte.

Ainda hoje, quando escuto canções como “Happy”, “I'll be there” e “One Day in your life” ainda em sua voz infantil, me desprendo dos meus 52 anos e faço uma viagem insólita até aqueles dias onde meus onze anos eram nada mais do que uma pequenina estação de onde partiria o trem da minha jornada. Tempos felizes, onde eu podia viver alheio a tudo o que acontecia pelo mundo, quer fossem as guerras ou as tragédias que dizimavam pessoas por todas as partes. Alheio até aos dramas familiares, as dificuldades que tomam o café da manhã, almoçam e jantam com a família ou algumas vezes em que a dificuldade foi tanta que ela nem apareceu para “fazer uma boquinha”, porque nos armários só haviam prateleiras vazias e na mesa, uma invasão de moscas como se aquilo fosse um aeroporto esquecido.
Nesta volta pelo tempo, revejo amigos perdidos e repasso por tantas situações que nem caberiam neste espaço. As alegrias, as tristezas, as chuvas torrenciais, o vendedor de verduras em sua carroça, o apito do trem cortando a cidade e as sirenes da polícia deixando todo mundo assustado. Repasso a alegria da minha casa, a vida dos meus pais que já se foram, as primeiras festinhas no melhor estilo americano e na vitrola...Michael Jackson.

Depois vieram os aparelhos de som, os três em um, os cassetes até chegarmos aos dvds e a estas tecnologias ainda mais avançadas.
Mas ele sempre se fez presente no presente ainda que por muitas vezes, fossemos buscá-lo naquele passado tão ingênuo, onde meninos e meninas eram simplesmente meninos e meninas inocentes, que podiam até se apaixonar, que podiam até trocar um beijo e ficava tudo por ai. Bem; muitos acabaram esperando o tempo passar e se casaram. Que coisa mais antiga você pode dizer hoje não é mesmo? Mas... onde ficou a inocência daqueles tempos? Daquela época em que lá longe um menino de nove anos cantava muito melhor que muita gente grande e mais tarde, tornar-se-ia tão grande que lhe faltaria espaço para a coisa mais simples a que todos temos direito: a liberdade de viver.
Sim; Michael Jackson não pode viver como nós, meninos ditos normais. Talvez diante dos nossos 50 anos ainda não tenhamos conseguido realizar muitos daqueles sonhos antigos de consumo.


A luz agora é divina caro Michael Jackson e que você trilhe por ela, seja lá onde for, com a mesma simplicidade, com a mesma voz, com os mesmos sonhos enfim. E que agora, o Criador te dê a chance ser um menino normal, só para que você possa sentir de verdade, o quanto de riqueza e brilho isto tem de importante na vida de todos nós.
- PEDRO BRASIL JUNIOR -
26 de junho/2009
*Publicado originalmente na Usina de Letras