quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O JATÃO EM SANTA FELICIDADE - MEMÓRIAS DE UM PROJETO POLÊMICO

Santa Felicidade é um dos bairros mais famosos de Curitiba e conhecido mundo afora.
A maioria dos turistas oriundos de diversas regiões do país e também do exterior se deliciam com as variadas opções gastronômicas daquele bairro construído por imigrantes italianos.
Quem trafega pela Via Vêneto e vislumbra uma paisagem diferente em meio a tantos restaurantes e lojas não imagina o quanto de história o bairro proporciona.
Não daria para adentrar na história de Santa Felicidade sem que preciso fosse ocupar centenas de páginas e através delas, mergulhar num passado realmente fantástico e glorioso para sua gente.
Mas ali mesmo na Via Vêneto, existe uma lembrança apagada pela necessidade de infraestrutura viária decorrente do progresso da região. Só quem viu e quem teve a sorte de freqüentar é que pode avivar na mente a supremacia de um restaurante ou casa noturna que um dia ocupou as páginas de jornais e as matérias de telejornais em diversas emissoras. Era o Restaurante “O Jatão” que acabou gerando polêmicas desde a idéia então traçada, passando pelo seu funcionamento atrativo até culminar com um fato ainda mais curioso.
O Jatão era uma construção em formato de avião que ocupava um ponto estratégico da hoje Via Vêneto que na época era ainda um prolongamento da Avenida Manoel Ribas.
O proprietário Elmo Waltrick, antes dessa epopéia era conhecido como o “garçon artista” e tão logo chegou à Curitiba já conquistava o público do restaurante Carreteiro através de suas habilidades artísticas. Simpático e imaginoso logo conseguiu comprar uma primeira casa, o restaurante “Sete Belo”, passando depois para o “La Rond’”.
Dotado de muita sorte, Elmo ganhou um prêmio da loteria que lhe permitiu avançar num projeto arrojado perante o qual, a maioria dos amigos e conhecidos dizia que ele estava ficando louco.
Elmo Waltrick
Loucura ou não, Elmo não se deteve e mesmo diante do pessimismo que cercava na época os comerciantes da noite curitibana o “garçon artista” deu início ao projeto e logo começava a terraplanagem da área onde seria erguido “O Jatão”. Numa área de 410 metros quadrados, na extensão de 41 X 10 metros, com 112 mesas e capacidade para 360 pessoas, “O Jatão” ficava ao lado da “La Rond” e atraia por ser diferente os casais que ali vinham curtir bons momentos. Apesar da estética discutível, que levou a diretoria de urbanismo da prefeitura a relutar em razão de que uma das asas do avião avançava sobre a Avenida Manoel Ribas, o proprietário não se entregou e diante de sua teimosia foi lá e mandou cortar a metade da asa. Dessa maneira o ridículo projeto original, na opinião de muitas pessoas, ganhou mais um detalhe curioso, fazendo do Jatão o único avião do mundo maneta – com apenas um pedaço da asa direita.
Evidentemente que uma série de motivos prós e contras foram rodeando o projeto que era sucesso, mas que de alguma maneira fugia, vamos assim dizer, da tradição italiana de Santa Felicidade.
Não demorou muito para que “O Jatão” saísse de cena em razão da duplicação da Avenida Manoel Ribas que exigia ocupar justamente aquela área que assim foi desapropriada para tristeza de seu idealizador.
Apesar de ter feito parte do folclore urbanístico de Curitiba, “O Jatão” rapidamente foi esquecido e hoje são poucas as pessoas que se lembram que um dia Santa Felicidade teve uma casa bem diferente.
Só para vocês terem uma idéia de como a memória é curta, eu batalhei muito para tentar conseguir uma fotografia do Jatão. Foram mais de um ano fazendo buscas por referências sobre a rápida história de “O Jatão” e fotografias. Para tanto, tive que procurar o próprio Elmo Waltrick pela Internet e consegui apenas localizar seu filho, Elmo Waltrick Jr. que foi peça fundamental para que eu pudesse registrar aqui a existência de “O Jatão”.
Depois consegui falar com o próprio Elmo via telefone e ele se mostrou a mesma pessoa simpática e prestativa. Me mandou uma foto e um CD contendo matéria especial feita pela Rede Record na cidade onde hoje ele vive: Bonito-MS.
Elmo como sempre disposto a uma polêmica, logo que chegou à Bonito não teve dúvidas; decidiu abrir uma cachaceria para concorrer com uma lá instalada, a “Ta Boa”. O que ele fez? Colocou o nome de “Ta Ruim” e ai já viu; a polêmica se espalhou e hoje ambas funcionam muito bem obrigado.
Elmo Waltrick é um conterrâneo, bom Lageano, divertido, persistente, trabalhador e inovador. Sua passagem por Curitiba foi marcante tanto por suas habilidades artísticas nos restaurantes onde trabalhou quanto pela idéia maluca de construir uma casa em formato de avião e criar polêmicas variadas, coisa que deve fazer parte do seu sangue e porque não dizer também, do seu lado extremamente brincalhão.
Elmo Waltrick e sua criação,
a cachaça "Tá Ruim"
O Jatão ficou registrado em páginas de jornais locais, mas um dos colunistas que mais fez referência a ele foi o saudoso jornalista Aramis Millarch, então um dos mais especializados em música e cinema no Brasil e que mantinha nas páginas de O Estado do Paraná a coluna “Tablóide”.
O Blog agradece o apoio de Elmo Waltrick pai e filho por terem proporcionado esta grande oportunidade para que a gente pudesse fazer um registro para comprovar aos que hoje duvidam que um dia Curitiba, em sua italianíssima Santa Felicidade, teve um restaurante chamado “O Jatão”.
CONHEÇA BONITO

No link a seguir veja interessante reportagem do Programa Câmera Record feita pela repórter Renata Alves mostrando belezas e curiosidade de Bonito-MS.
http://videos.r7.com/conheca-o-paraiso-de-aguas-cristalinas-no-brasil/idmedia/4e7b9225b51ab78b4adb576c.html

16 comentários:

Luiz Andrioli disse...

Bom texto, amigo. Este restaurante marcou meu imaginário de criança. Abs!

Fabricio Spada disse...

Sempre imaginei como seria esse restaurante, meus pais diziam que iam la para namorar.

Ivonete disse...

Oi Pedro
Eu conheci "O Jatão" em suas duas cores, a inicial, branca e uma cor bem azul quando também mudou de nome. Quando ele foi demolido, já não se chamava mais "O Jatão". Ele ficou mais de um ano fechado.Foi muito estranho, de um dia para o outro o restaurante sumiu. Isso foi no início da década de 80. Eu tinha dez anos e um dia até cheguei na porta...mas nunca entrei lá!!! Abs.

Ivonete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Muito legal! Meu pai dizia que eu fui "encomendada" graças ao Jatão. Sempre quis saber como era o lugar.

vera disse...

Eu lembro bem quando passava de ônibus em frente.

Anônimo disse...

O.D
Eu era feliz e sabia...

Anônimo disse...

O meu sogro, falecido, era maneta e o apelido dele era jatao, estou casado a vinte anos, e só agora em uma conversa com um taxista que o conhecia e que toda a família minha ficou sabendo o motivo do apelido....

Tradutor de Ferro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tradutor de Ferro disse...

A memória da maioria dos brasileiros é realmente bem curta, mas com certeza o restaurante Jatão impressionou um certo menino do Rio de Janeiro. Esse menino nem se lembra mais do nome da cantina em Santa Felicidade onde comeu massa, mas tem viva na memória aquela construção inusitada em uma avenida onde passou apenas uma vez na vida.
É disso que são feitas as paisagens urbanas, as lendas e as histórias mais saborosas.
O menino, hoje com 47 anos de idade deseja todas as bençãos para o criador do Jatão, Elmo Waltrick, que viva muitos anos, seja feliz com os seus e goze de boa saúde !

Anônimo disse...

Eu frequentava o jatão no começo do meu namoro com meu marido, achava o lugar muito aconchegante e criativo, na cabine era a pista de dança, no corpo do avião ficavam as mesas e na calda do avião o bar e banheiros.Adorava ir lá, hj já faz quase 30 anos que casei, infelizmente meu marido é falecido, mas acabei de mostrar aos meus filhos com muita emoção, um dos lugares onde eu e meu marido namoravamos. Obrigada por essa reportagem, muito bom reviver esses momentos de alegria.

Fernando disse...

Não dá pra compartilhar no Facebook? Alguém saberia dizer a data de inauguração e por quantos anos permaneceu aberto? Hoje tenho 34 anos e uma vaga lembrança de ter passado em frente e gostaria de confirmar! Ótima matéria. Lugar mágico. Abraços!

Laudenir Ramos disse...

Muito interessante essa reportagem, eu me lembro de reportagens sobre esse "avião" quando ele ainda estava na ativa, mas como eu era criança, nunca prestei atenção de onde era, hoje vi uma foto no facebook o que me instigou a procurar mais relatos sobre o Jatão, foi quando encontrei seu blog.

João Maria Ferreira disse...

Reportagem bastante interessante. Ficou faltando o período de funcionamento do "Jatão". Obrigado.

LIMAR LIMAR disse...

Foi no início de 1979 que conheci minha esposa com quem sou casado até hoje, e foi no restaurante O JATÃO que fomos jantar num primeiro encontro. Infelizmente não lembro por quantos anos funcionou. Independentemente de seu aspecto lindo, feio ou duvidoso, com certeza marcou toda uma geração, embalando sonhos, namoros, brigas e tantos outros sentimentos. Para mim, valeu enquanto durou...Obrigado Deus por mais esta experiencia vivída.

Pedro Brasil Jr disse...

Prezados João Maria e Limar Limar:

Não sei precisar a duração do funcionamento do Jatão. Mas que lembro bem não foi superior a 4 anos, porque ocorreram vários problemas na época quando a prefeitura achou por bem que retirassem a asa do avião que ficava sobre a atual Via Vêneto. Dali em diante o Elmo só brigou e não conseguiu muita coisa. Desanimou, fechou e foi embora para Bonito/MS. Mas o Jatão marcou sua época como tudo o que foge aos paradigmas sociais marca. Felicidades a vocês e grato fico pela visita ao blog e pela leitura.